Portugal continua a permanecer significativamente atrasado em relação aos seus concorrentes no investimento de risco.
Em entrevista ao Jornal Económico (JE), o CEO da Dealflow.eu e managing partner da Ventures.eu, Thijs Povel, discute a realidade dos fundos de pensões e do capital de risco em Portugal, comparando-a com outras realidades europeias. Thijs Povel possui uma ampla experiência no universo das startups e do capital de risco. Ele lidera a Dealflow.eu,…
Em entrevista ao Jornal Económico (JE), o CEO da Dealflow.eu e managing partner da Ventures.eu, Thijs Povel, discute a realidade dos fundos de pensões e do capital de risco em Portugal, comparando-a com outras realidades europeias.
Thijs Povel possui uma ampla experiência no universo das startups e do capital de risco. Ele lidera a Dealflow.eu, uma plataforma apoiada pela União Europeia que conecta startups inovadoras, especialmente na área de deep tech, a investidores e grandes empresas de capital de risco, e é managing partner da Ventures.eu, um fundo europeu de capital de risco.
Na referida entrevista, Povel analisa a situação dos fundos de pensões e do capital de risco em Portugal, destacando que o país ainda apresenta um certo atraso nesse campo.
Esse atraso no capital de risco resulta em consequências significativas: um menor número de empresas portuguesas a alcançar escalabilidade, uma quantidade reduzida de unicórnios e uma menor quantidade de empregos altamente qualificados no país.
Povel também salienta uma deficiência em Portugal, que se relaciona com a inexistência de grandes fundos de pensões privados e a dependência do capital estrangeiro para rodadas de investimento em fase avançada.
Apesar dessas dificuldades, existem aspectos positivos em Portugal. Um deles, conforme mencionado por Thijs Povel, é que o país é “desproporcionalmente eficaz” na atração de capital estrangeiro.
Povel oferece também várias sugestões sobre como Portugal pode diminuir o abismo em relação a outras realidades europeias.
Capital alocado pelos fundos de pensões europeus: como está a situação em Portugal?
Portugal apresenta uma situação distinta em relação à França, Países Baixos ou os países nórdicos, e a questão da “fuga de capitais” se aplica de maneira diferente aqui.
A questão central é a escala. Os ativos dos fundos de pensões privados em Portugal somaram cerca de 43,6 mil milhões de dólares em 2022 (OCDE via Statista), um valor relativamente baixo no contexto europeu. A maior parte das poupanças para a aposentadoria em Portugal está concentrada no sistema público de repartição da Segurança Social, que não realiza investimentos nos mercados de capitais, apresentando assim uma limitação estrutural para o capital que poderia ser direcionado ao capital de risco, seja nacional ou estrangeiro.
O que existe, na verdade, é uma alocação conservadora. No final de 2025, as carteiras dos fundos de pensões nacionais consistiam em 63% de dívida, 20% de ações e 11% em imobiliário (IPE/ASF, março de 2026). A exposição ao capital de risco, direta ou indiretamente, era insignificante.
Embora o mercado de capital de risco em Portugal ainda seja pequeno em comparação com outros países europeus, o Banco Português de Fomento desempenha um papel crucial na promoção do ecossistema através do Programa Venture Capital e do Fundo de Capitalização e Resiliência (FdCR), com cerca de 300 milhões de euros contratados a fundos de capital de risco portugueses até dezembro de 2025. A Portugal Ventures também continua a apoiar negócios em fase inicial.
Como se compara Portugal com seus pares?
Portugal ainda está significativamente atrás de seus pares em termos de capital de risco investido per capita. Dados da Aliança Europeia de Nações em Startups (ESNA) mostram que, em 2025, Portugal recebeu aproximadamente 65,5 mil euros por cada 1.000 habitantes em investimento em startups, enquanto a Estônia, a Irlanda, os Países Baixos, a Suécia e a Finlândia captaram entre 193,9 mil a 309,6 mil euros. A Estônia, com apenas 1,3 milhões de habitantes, arrecada quase cinco vezes mais capital de risco per capita do que Portugal.
Tais discrepâncias não são mera abstração, pois têm um reflexo direto na quantidade de empresas portuguesas que conseguem escalar, no número de unicórnios e na quantidade de empregos altamente qualificados que se estabelecem em Portugal.
E em relação aos fundos?
O padrão se repete quando se analisa a escala dos fundos. Dos 10 principais fundos de capital de risco europeus levantados em 2025, todos estavam sediados no Reino Unido, França ou Alemanha. Nenhum fundo português fez parte dessa lista, uma ausência que se traduz diretamente na dependência de capital estrangeiro que as scale-ups portuguesas enfrentam ao avançar para a Série B e além. Exemplos como Feedzai, Unbabel e SWORD Health mostram que essas empresas precisaram captar capital significativo fora de Portugal para conseguir escalar.
Portanto, o desafio de Portugal não é a “fuga” de dinheiro dos fundos de pensões, mas sim o fato de o país nunca ter construído grandes fundos de pensões privados, nem ter estabelecido fundos domésticos de crescimento robustos, continuando a depender fortemente de capital estrangeiro para investimentos em fases avançadas, além de faltar recursos para rodadas iniciais. Como contrapartida, Portugal tem sido desproporcionalmente eficaz em captar capital externo, seja de fontes da UE através do FEI, de fundos de capital de risco internacionais que se estabelecem em Lisboa, ou de capital corporativo e de family offices através do programa Golden Visa.
Que medidas poderia Portugal tomar para inverter o panorama?
Para reverter essa situação, quatro iniciativas são fundamentais:
1. Reforçar o segundo pilar das pensões. Portugal precisa de pensões privadas adicionais e significativas. Sem essas, o capital interno disponível para alocação permanece escasso. O relatório Draghi identificou o subdesenvolvimento de sistemas de pensões privadas em diversos Estados-Membros da União Europeia como um dos principais obstáculos à competitividade, e Portugal se insere nesse cenário.
2. Adotar uma versão portuguesa da iniciativa Tibi, que visava mobilizar poupança privada para financiar startups e empresas tecnológicas. Trata-se de uma carta voluntária convidando seguradoras, bancos e gestores de patrimônios a investir em fundos de capital de risco portugueses e europeus. A França conseguiu captar 13 mil milhões de euros dessa forma e está expandindo o modelo, enquanto a Irlanda explora uma iniciativa semelhante com um potencial de 1 a 2 mil milhões de euros em capital institucional inexplorado.
3. Utilizar mais agressivamente o FdCR e a Portugal Ventures como investidores âncora, com um mandato claro para atrair investidores privados. O capital público deve servir para mitigar o risco do capital privado, e não para substituí-lo.
4. Reexaminar o equilíbrio entre o capital público em fases iniciais e avançadas. Existe um consenso crescente em Bruxelas sobre a necessidade de financiar scale-ups em fase avançada para que não tenham que buscar capital de crescimento nos EUA. A European Tech Champions Initiative é um exemplo claro disso, com 20 mil milhões de euros mobilizados para apoiar grandes fundos em fase avançada. Embora a concentração de capital público em fases avançadas possa ser justificada, é importante questionar se isso é o equilíbrio correto.
O motivo é que o capital americano tende a ser mais ativo em rodadas europeias em fase avançada, dado que seus grandes fundos operam globalmente, investindo onde as melhores empresas estão. As startups europeias em fase de crescimento encontrarão capital em rodadas de financiamento da Série C e seguintes, independentemente do ETCI, e a origem desse capital, mesmo que seja americana, não é necessariamente negativa. Em contrapartida, investidores em fases iniciais tendem a ser locais, pois um fundo seed americano muito dificilmente investirá em Portugal. Assim, se o financiamento europeu em fase inicial secar, não haverá substitutos disponíveis para preencher essa lacuna.
