Uma análise sobre quatro décadas de união europeia (II)

Uma análise sobre quatro décadas de união europeia (II)

Este texto consiste na segunda parte do ensaio publicado a 9 de janeiro no Jornal Económico. Numa avaliação sumária, baseada numa experiência direta ou numa observação próxima, ao longo de mais de vinte e oito anos*, considero que é legítimo concluir que o interesse nacional foi melhor atendido sempre que a negociação se deu no



Este texto consiste na segunda parte do ensaio publicado a 9 de janeiro no Jornal Económico.

Numa avaliação sumária, baseada numa experiência direta ou numa observação próxima, ao longo de mais de vinte e oito anos*, considero que é legítimo concluir que o interesse nacional foi melhor atendido sempre que a negociação se deu no âmbito do método comunitário, sempre que a negociação teve uma natureza holística e quando houve clareza política para projetar os interesses de longo prazo do País. Esta conclusão aplica-se igualmente aos demais Estados-membros, conferindo uma natureza estratégica a essas decisões comunitárias.

Foi assim que as negociações dos Quadros Financeiros Plurianuais permitiram uma negociação simultânea e integrada tanto dos recursos financeiros disponíveis como da natureza e intensidade das políticas com impacto no orçamento comunitário (os chamados Pacotes Delors I, II e III). De sua própria natureza, essas negociações levaram à definição de objetivos e linhas políticas de negociação que envolveram o centro governamental de decisão e o empoderamento dos representantes em cada estado, proporcionando uma capacidade de reação negocial superior àquela que resultaria do funcionamento normal do processo político-administrativo nacional.

É igualmente válido concluir que, na falta de uma abordagem holística, o método comunitário não garante por si só uma consistência nem com os objetivos de longo prazo da UE nem com outras políticas setoriais. De fato, observa-se que a multiplicação de propostas e a adoção de medidas setoriais tendem a diminuir a intensidade das considerações holísticas e de natureza estratégica no processo de negociação, levando ao alinhamento, tanto das propostas como das posições negociais, à manutenção do status quo ou aos interesses de uma das partes, geralmente a mais vocal ou a mais presente no espaço público ou político. Ou seja, na ausência de uma abordagem holística, o método comunitário pode favorecer um desencontro insuperável entre o setor produtivo e a regulamentação estabelecida. Esta observação aplica-se tanto à definição das posições negociais dos Estados-membros como à formulação das propostas pela Comissão Europeia, no exercício do seu monopólio de iniciativa.

Um exemplo das consequências da falta de uma abordagem holística é o resultado das negociações comerciais, particularmente no contexto das negociações do Uruguai Round, área de competência exclusiva da Comissão Europeia. De fato, foi uma negociação predominantemente setorial, negligenciando as dimensões relacionadas à política de regeneração industrial, concorrência e inovação e desenvolvimento tecnológico. Simultaneamente, houve uma forte influência dos interesses dos países importadores e dos respectivos traders de produtos que estavam em deslocalização – influência que os produtores comunitários afetados e os respectivos Estados-membros tentavam contrariar com uma abordagem estática ou imobilista de conservação do mercado comunitário, ao invés de uma resposta dinâmica que alterasse a natureza/qualidade da oferta. Essa abordagem não favoreceu a regeneração do tecido produtivo europeu e foi comum entre os países que atrasaram na revisão de seu modelo de especialização. Houve a ilusão de que era possível construir uma “barreira contra o oceano Pacífico.” Recordo que a União Europeia ainda defendia, no âmbito do “Uruguay Round,” a chamada “exceção cultural” para o audiovisual, visando a salvaguarda da aplicação de quotas para a exibição de filmes em sala ou na televisão, quando a evolução tecnológica já apontava firmemente para a transição digital, streaming e pay-per-view. O mesmo ocorreu em outros setores tradicionais, onde as posições nacionais foram condicionadas, com elevado custo, pela defesa estática do que já estava irremediavelmente condenado.

As políticas setoriais tendem a ser dominadas pelos interesses estabelecidos do lado dos utilizadores ou consumidores, sem levar em conta a necessidade de evolução paralela das regras de mercado, das possibilidades de produção e da necessidade de articulação dos vértices do sistema europeu de inovação (pesquisa e desenvolvimento tecnológico, formação e educação) com o sistema produtivo e o potencial empreendedor. O mercado europeu foi a “sand box” – o mercado de ensaio – que beneficiou os produtores dos países terceiros no seu próprio processo de inovação.

Por outro lado, podemos concluir que a aplicação do método intergovernamental tende, por um lado, a dificultar a consideração dos interesses dos pequenos e médios países, especialmente quando apresentam especificidades maiores, e, por outro, a criar um enquadramento instável em função dos interesses dos grandes Estados-membros ou do desinteresse de outros que bloqueiam a decisão ou exigem contrapartidas fora de um processo transacional aberto e multidimensional.

A exclusão do método comunitário das políticas não relacionadas com o mercado único não afetou apenas os pequenos e médios Estados-membros. Teve também um impacto na capacidade da União Europeia de adotar uma abordagem holística e dinâmica em relação às políticas comunitárias e na compreensão da articulação entre o sistema europeu de inovação, o sistema produtivo, o sistema de defesa e segurança, e o papel das instituições públicas na produção de bens públicos e na viabilização de indústrias ou serviços emergentes. Ou seja, a deriva intergovernamental conduziu ao estágio atual em que nos encontramos, caracterizado por uma autonomia estratégica cada vez menor, evidenciada pela incapacidade de produzir internamente bens e tecnologias críticos (semicondutores, farmacêuticos, defesa); concentração de fornecedores e fortes dependências unilaterais; insuficiência de capacidades militares e de defesa próprias; e dependência tecnológica, especialmente em áreas como inteligência artificial e cibersegurança.

No entanto, os efeitos da falta de clareza e coragem ao longo de três décadas se farão sentir no futuro, quando os europeus se confrontarem com seus desafios crescentes. A resposta reside em uma visão holística das políticas e num controle democrático fundamentado na responsabilização pelos seus efeitos sobre a sustentabilidade do processo de crescimento e da melhoria do bem-estar e segurança dos cidadãos europeus. Isso depende da capacidade de restaurar a dinâmica de integração, baseada no aprofundamento do processo de partilha de soberania nas áreas críticas para o reforço da autonomia estratégica da União Europeia, como proposto no Relatório Draghi; e, em segundo lugar, da coragem política para retomar as propostas de diferenciação dos níveis de integração e dos processos de decisão de Jacques Delors, no início dos anos 90, permitindo que diferentes grupos de Estados-membros avancem na integração em ritmos diversos e em áreas distintas, conforme suas capacidades e vontades políticas.

É imperativo retomar a construção em círculos concêntricos: mercado único (revitalizando o Espaço Económico Europeu); união econômica (transferindo para o método comunitário as políticas determinantes na dinâmica de afirmação/recuperação da autonomia estratégica da União); e, por último, a União Econômica e Monetária (transferindo para o método comunitário as políticas relacionadas com a coordenação econômica e financeira dos Estados da zona do euro, assim como a segurança interna e externa – desenvolvendo o pilar político e institucional correspondente). Isso significa que, assim como ocorreu com a criação da UEM e a participação na moeda única, será necessário estabelecer duas condições para a adesão a cada um dos círculos de integração: partilha de objetivos e aceitação das regras de acesso e funcionamento.

Uma resposta que não dispensa uma revisão dos estatutos das instituições, especialmente da Comissão Europeia, para garantir simultaneamente a representação dos Estados-membros, a eficácia de funcionamento e a responsabilização democrática pelos resultados, avaliados pela evolução da autonomia estratégica da União Europeia. Assim como acontece com o Banco Central Europeu, há espaço para a adoção de um Estatuto para a Comissão Europeia. E os estatutos do BCE podem servir de boa inspiração no que diz respeito à representação, ao poder executivo e à prestação pública de contas sobre os resultados das políticas relativas aos desenvolvimentos sociais e econômicos da União e sobre seu posicionamento no contexto das interdependências globais.

Trata-se de uma agenda ambiciosa que requer uma reformulação dos tratados e, por consequência, uma nova Conferência Intergovernamental. Não será uma agenda fácil, mas é, a cada dia, mais crítica.

* 28 anos de envolvimento nas instituições/negociações comunitárias (7 como Coordenador do NEF na REPER, 7 como Chefe de Gabinete do Comissário Europeu, 4 como Vice-Presidente do Banco Europeu de Investimento e 10 anos como membro do Conselho de Governadores do BCE)


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