Portugal elegeu o seu primeiro Presidente da República em liberdade – António Ramalho Eanes – em 1976, dois anos após o golpe do 25 de Abril de 1974, que pôs fim a 48 anos de ditadura. Militar e operacional do 25 de Novembro, que marcou o princípio do fim do Processo Revolucionário em Curso (PREC),
Portugal elegeu o seu primeiro Presidente da República em liberdade – António Ramalho Eanes – em 1976, dois anos após o golpe do 25 de Abril de 1974, que pôs fim a 48 anos de ditadura. Militar e operacional do 25 de Novembro, que marcou o princípio do fim do Processo Revolucionário em Curso (PREC), Ramalho Eanes ocupou o Palácio de Belém por dez anos.
1976: A hora dos militares
As primeiras eleições presidenciais em democracia, disputadas em junho de 1976, tiveram como pano de fundo a revolução de 1974. Três dos principais candidatos eram militares: Ramalho Eanes, Otelo Saraiva de Carvalho e Pinheiro de Azevedo.
O único civil nesta corrida eleitoral foi Octávio Pato, apoiado pelo PCP, que ficou em quarto lugar nas urnas (com 7,5% dos votos), enquanto o general António Ramalho Eanes obteve uma vitória destacada (com 61,5%) e o major Otelo Saraiva de Carvalho ficou em segundo lugar (com 16,4%).
O almirante Pinheiro de Azevedo foi o terceiro mais votado (14% dos votos), após ter passado os últimos dias da agitada campanha eleitoral no hospital, em decorrência de um ataque cardíaco sofrido pouco depois de uma conferência de imprensa no Porto.
Com três militares na corrida para suceder a outro militar, Costa Gomes, a campanha concentrou-se no papel das Forças Armadas, com o 25 de Abril sempre presente nos discursos.
Eanes estava associado ao 25 de Novembro de 1975, que pôs fim ao processo revolucionário, e a sua candidatura contava com o apoio dos principais partidos (PS, PPD e CDS), assim como de outros menores como o MRPP.
Otelo, figura central na revolução que extinguiu 48 anos de ditadura, apresentava uma candidatura ligada ao 25 de Abril, apoiada por uma coligação de pequenos partidos de extrema-esquerda.
“Eu estou convencido que o general Ramalho Eanes andou a torpedear o 25 de Abril e eu próprio algumas vezes estive para o mandar prender, mas o Otelo nunca deixou,” afirmou Pinheiro de Azevedo, o primeiro-ministro na época e o único candidato sem apoio partidário, no Porto, conforme citado pelo Diário de Lisboa de 23 de junho de 1976.
O mesmo jornal relatava “pedradas e tiros à passagem por Lamego” da caravana de Otelo e um morto e seis feridos durante uma deslocação da comitiva de Ramalho Eanes a Évora.
“Um crescente de violência está a marcar inesperadamente a campanha para as eleições presidenciais: depois dos incidentes no norte do país à passagem da caravana de Otelo Saraiva de Carvalho, a cidade de Évora, que recebia o general Eanes, foi ontem (dia 17 de junho) palco de correrias e tiros, resultando em um morto e seis feridos,” noticiou o jornal.
Na etapa final da campanha, Ramalho Eanes assegurou em Lisboa, em um comício na Alameda, que o fascismo tinha acabado. “Não voltaremos ao período de antes do 25 de Abril. O fascismo morreu neste país,” afirmou.
“A campanha correu o melhor possível, excedendo largamente as expectativas que nós tínhamos a princípio. De norte a sul do país e nas ilhas, provou-se que continua vivo o espírito de 25 de Abril,” disse Otelo à agência ANOP, em um balanço de campanha, mostrando-se convicto de que haveria uma segunda volta. Não houve.
Ramalho Eanes foi eleito em 27 de junho de 1976, logo à primeira volta.
1980: Camarate ensombra ‘duelo’ de generais
A morte de Francisco Sá Carneiro e de Adelino Amaro da Costa em 04 de dezembro de 1980 marcou as presidenciais que se realizariam três dias depois, disputadas por Ramalho Eanes e Soares Carneiro.
O avião onde viajavam o então primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, e o ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, que iam assistir a um comício da candidatura de Soares Carneiro, no Porto, caiu em Camarate, ao descolar do aeroporto da Portela, em Lisboa, provocando a morte de todos os ocupantes.
Os candidatos às presidenciais suspenderam suas campanhas na quinta-feira à noite.
A Comissão Nacional de Eleições (CNE) decidiu que a situação decorrente da morte do primeiro-ministro não constituiu “fundamento legal para o adiamento do ato eleitoral,” e este realizou-se como previsto em 07 de dezembro de 1980.
As eleições foram disputadas principalmente entre dois generais: António Ramalho Eanes, que se recandidatou à Presidência como independente, e o general António Soares Carneiro, considerado conservador e apoiado pela Aliança Democrática (AD), formada pelo PSD, CDS e PPM e liderada por Sá Carneiro.
Otelo Saraiva de Carvalho, o segundo candidato mais votado nas presidenciais de 1976 (com 16,4%), também se apresentou nesta corrida eleitoral, alcançando apenas 1,4% dos votos, enquanto candidatos como Galvão de Melo, Pires Veloso e Aires Rodrigues não chegaram a 1%.
O candidato lançado pelo PCP, Carlos Brito, desistiu a poucos dias das eleições em favor de Eanes.
“Não porque aprove a política e atuação deste enquanto Presidente da República, mas porque é a única alternativa para derrotar o candidato dos partidos reacionários,” explicou o PCP.
Eanes também contou com o apoio dos socialistas, apesar da resistência de Mário Soares, fundador do PS.
“Era uma solução de facilidade: apesar de tudo, Eanes tinha força, era Presidente da República, eleitoralmente conhecido e popular em certas áreas, e, sobretudo, beneficiava do prestígio que lhe conferia a função,” disse Soares em uma conversa com a jornalista Maria João Avillez, confessando que ainda propôs que o PS escolhesse outro candidato, militar ou civil. “Mas a verdade é que não se improvisam candidatos,” afirmou.
A menos de dois meses das eleições, Soares acabou por retirar seu apoio pessoal a Eanes, descontento com a “ambiguidade” do candidato, suspendeu suas funções de secretário-geral do PS até a realização das presidenciais.
Com Soares Carneiro, a AD, que vencerá as legislativas disputadas pouco antes, em outubro, tentava cumprir o projeto “Um governo, uma maioria, um presidente,” mas o luto instaurado no país após os acontecimentos de Camarate e a realização, na véspera das eleições, das cerimônias fúnebres de Sá Carneiro e Amaro da Costa, transmitidas pela televisão durante horas, não impediram a vitória de Eanes.
O general foi reeleito Presidente da República com 56,4% dos votos, enquanto Soares Carneiro obteve 40,2%.

















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