Pressão normativa e demandas do cliente transformam sustentabilidade em um elemento de concorrência essencial, afirma Alejandro Tostado da CHEP
Empresas do setor de abastecimento possuem uma significativa pegada de carbono, mas apenas 15% delas estabeleceram metas para mitigar as emissões geradas pela cadeia de abastecimento. A CHEP é uma dessas empresas, tendo implementado importantes estratégias para este fim. A CHEP, que é uma empresa australiana e parte do Grupo Brambles, é pioneira em soluções…
Empresas do setor de abastecimento possuem uma significativa pegada de carbono, mas apenas 15% delas estabeleceram metas para mitigar as emissões geradas pela cadeia de abastecimento. A CHEP é uma dessas empresas, tendo implementado importantes estratégias para este fim.
A CHEP, que é uma empresa australiana e parte do Grupo Brambles, é pioneira em soluções sustentáveis para cadeias de abastecimento, e tem tomado iniciativas concretas para reduzir a pegada de carbono do setor, que apresenta um impacto considerável. Segundo o estudo “Scope 3 Upstream: Big challenges, simple remedies”, apenas 15% das empresas estabeleceram metas para mitigar as emissões da cadeia de abastecimento. Os setores da indústria transformadora, do varejo e dos materiais são os maiores responsáveis por essas emissões, com uma pegada 1,4 vezes superior ao total de CO2 emitido na União Europeia em 2022. Este estudo revela que muitas empresas e suas cadeias de abastecimento ainda estão longe de conseguir diminuir sua pegada ecológica.
Nesse contexto, e em um momento em que o setor discute a implementação da Diretiva sobre Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD), Alejandro Tostado, diretor sênior de Sustentabilidade e Assuntos Governamentais da UE, compartilhou com o JE o que a empresa tem feito para reduzir sua pegada de carbono.
O que tem sido feito pelo setor para alcançar a sustentabilidade ou reduzir a pegada de carbono?
O setor de paletes tem adotado uma abordagem cada vez mais estratégica e inovadora para reduzir sua pegada de carbono, focando na durabilidade e digitalização.
Na CHEP, por exemplo, estamos criando novos produtos que são mais duráveis e neutros em carbono. Entre eles, destaca-se nossa palete de quarto de dimensão Q+, feita de plástico pós-consumo, e as paletes de madeira reforçadas, que requerem menos reparos e aumentam sua vida útil. Além disso, todas as nossas paletes de madeira são fabricadas com madeira certificada, proveniente de florestas sustentáveis. Essas soluções não apenas diminuem o consumo de recursos, mas também minimizam as emissões geradas pela produção e manutenção.
Simultaneamente, estamos implementando soluções digitais avançadas que representam não apenas um avanço tecnológico, mas que também contribuem diretamente para a redução de desperdício, custos operacionais e emissões. Estas ferramentas possibilitam uma gestão mais eficiente da cadeia de abastecimento, otimizando rotas, reduzindo milhas em vazio e minimizando estrangulamentos, promovendo assim um uso mais inteligente dos recursos.
Além disso, o modelo de economia circular, exemplificado pelo sistema de pooling de paletes e contêineres, continua a ser uma das principais estratégias do setor. Este modelo se baseia na partilha, reutilização e reparação contínua dos ativos logísticos, evitando a produção de novos materiais e promovendo uma logística mais sustentável.
Como é que o setor encara este objetivo? É uma necessidade ou um obstáculo à atividade do setor?
O setor vê a sustentabilidade como uma necessidade estratégica e urgente, e não como um obstáculo. A crescente pressão regulatória, as demandas dos consumidores e a emergência climática transformaram a sustentabilidade em um fator competitivo essencial. Empresas como a CHEP reconhecem que isso representa uma oportunidade para inovar, reduzir custos e criar valor tanto para os clientes quanto para a sociedade.
A evidência de que esse objetivo é levado a sério está no fortalecimento contínuo das certificações de sustentabilidade que a CHEP e sua controladora, a Brambles, conquistam ano após ano. A CHEP Europa foi agraciada com a classificação EcoVadis Platinum, destacando-a entre o top 1% das empresas avaliadas globalmente em critérios ambientais, sociais e de governança. A Brambles também recebeu a classificação “A” no CDP (Carbon Disclosure Project) nas categorias de Clima e Florestas. Adicionalmente, foi reconhecida como uma das empresas mais sustentáveis do mundo pelo Dow Jones Sustainability Index e pela Corporate Knights, além de ter sido incluída pela revista TIME no ranking das 500 empresas mais sustentáveis do mundo em 2024 e 2025. Essas certificações validam não apenas o compromisso da empresa com práticas responsáveis, mas também reforçam a confiança dos stakeholders e abrem portas para novas parcerias e oportunidades de negócios.
Para atingir este objetivo existe um custo associado. Existem dados sobre quanto custa às empresas tornarem-se mais verdes? Quanto têm de investir?
Qualquer iniciativa requer investimento, e a transição para práticas mais sustentáveis não é exceção. No entanto, esse investimento deve ser visto não como um custo isolado, mas como uma alavanca estratégica que traz retornos em várias frentes. Empresas que adotam soluções ecológicas estão, na verdade, investindo em um futuro mais sustentável, responsável e competitivo.
Na prática, isso se traduz em iniciativas como a adoção de tecnologias digitais inteligentes, automação, dispositivos de rastreamento e algoritmos de otimização logística, que exigem um investimento inicial, mas que rapidamente se traduzem em eficiências operacionais, redução de desperdícios, economia de custos e melhoria de desempenho ambiental.
Além disso, essas ferramentas viabilizam uma tomada de decisão mais eficaz, baseada em dados em tempo real, fortalecendo a capacidade das empresas de antecipar necessidades, reduzir riscos e alinhar-se com regulamentações e exigências do mercado — tornando-as, em última análise, mais eficientes.
Quais são os principais desafios e oportunidades que as empresas enfrentam para alcançar este objetivo?
As empresas enfrentam uma variedade de desafios nesta transição, como a necessidade de investir em tecnologia, a complexidade das cadeias de abastecimento e, frequentemente, a resistência à mudança. No entanto, os maiores obstáculos podem ser transformados nas maiores oportunidades, especialmente para aqueles que se adaptam rapidamente.
As empresas que lograrem se ajustar rapidamente aos novos requisitos terão uma vantagem competitiva clara. Um exemplo concreto é o cumprimento das novas legislações e regulamentos europeus na área da sustentabilidade, que estão se tornando cada vez mais rigorosos. Quem conseguir alinhar-se a esses objetivos desde já estará melhor posicionado para crescer, inovar e conquistar novos mercados.
Por outro lado, quem não se adaptar poderá enfrentar sérias dificuldades no futuro, seja em termos de acesso a financiamento, parcerias comerciais ou até mesmo reputação. A sustentabilidade deixou de ser uma opção — agora, é uma condição para a continuidade e crescimento responsável.
Qual é o papel da Economia Circular na redução de emissões?
A Economia Circular desempenha um papel central na redução de emissões, promovendo um modelo de produção e consumo baseado na reutilização, reparação, partilha e regeneração de recursos. Ao invés de extrair, produzir e descartar, a circularidade permite manter os materiais em circulação por mais tempo, reduzindo significativamente o desperdício e a necessidade de novos recursos — e, consequentemente, as emissões associadas.
A CHEP, em particular, tem aplicado esses princípios na prática há mais de 70 anos, antes mesmo de o conceito de economia circular existir. A economia circular está no núcleo do nosso modelo de pooling de paletes e contentores, onde produtores e distribuidores ao redor do mundo compartilham e reutilizam continuamente nossas plataformas.
A mensuração da economia circular é cada vez mais importante e agora é uma exigência legal na Europa. Ferramentas como o Índice de Circularidade, desenvolvido pela Fundação Ellen MacArthur — com a Brambles atuando como parceira-chave em seu desenvolvimento e teste — permitem que clientes e parceiros avaliem o nível de circularidade de suas operações. Essa ferramenta ajuda a identificar oportunidades de melhoria, reduzir emissões e realizar decisões mais sustentáveis, promovendo uma cadeia de abastecimento mais eficiente e alinhada com os objetivos climáticos.
A colaboração entre empresas acelera o cumprimento das metas europeias?
A colaboração é essencial. A CHEP trabalha em estreita colaboração com clientes, fornecedores e outros parceiros para alinhar objetivos e implementar soluções conjuntas. A partilha de dados, boas práticas e recursos é fundamental para acelerar o progresso coletivo.
Qual é o estado atual do setor em termos de emissões e pegada de carbono?
O setor de logística e cadeia de abastecimento é responsável por uma parte significativa das emissões globais de gases de efeito estufa, principalmente devido ao transporte, produção de materiais e consumo de energia. Contudo, empresas como a CHEP têm assumido um papel de liderança na mitigação desse impacto, com metas de descarbonização ambiciosas e bem estruturadas.
Nosso modelo de negócios é, por natureza, de baixa intensidade de emissões, devido à sua circularidade, e auxilia nossos clientes na redução das emissões de suas cadeias de abastecimento ao substituir embalagens de uso único por nossas plataformas compartilhadas e reutilizadas.
A Brambles, nossa empresa-mãe, comprometeu-se a apoiar o objetivo do Acordo de Paris de limitar o aumento médio da temperatura global a 1,5 ºC acima dos níveis pré-industriais. Ao assumir esse compromisso, a Brambles já se dedicava a alcançar emissões líquidas nulas de gases de efeito estufa (GEE) até, no mais tardar, 2050. Em 2022, a Brambles anunciou o compromisso de antecipar esse objetivo para 2040, acelerando a meta em 10 anos.
Para gerenciar esse desafio de forma eficaz, constituímos uma função dedicada à descarbonização, que desenvolveu um roteiro público e acionável com metas de redução de emissões de curto, médio e longo prazo.
As metas de curto prazo incluem abastecer todos os centros CHEP com eletricidade de fontes renováveis até 2025 — meta que já foi alcançada — e atingir a neutralidade de carbono nas operações próprias (scope 1 e 2), meta que foi atingida em 2021 e mantida anualmente, enquanto continuamos a reduzir nossas emissões.
Quanto às metas científicas de médio prazo, até 2030 (Science-Based Targets – SBTs), comprometemo-nos a reduzir em 42% as emissões absolutas dos scopes 1 e 2 e em 17% as emissões absolutas do scope 3, tendo como base o ano de 2020.
A meta de longo prazo consiste em alcançar emissões líquidas nulas até 2040, cobrindo 100% das emissões operacionais e da cadeia de valor (scopes 1, 2 e 3).
O scope 1 refere-se a emissões diretas provenientes das operações, como o consumo de combustíveis em veículos próprios. O scope 2 diz respeito a emissões indiretas associadas à energia comprada, como a eletricidade utilizada nos centros de serviço. Já o scope 3 abrange as emissões indiretas da cadeia de valor — como transporte de terceiros, produção de materiais e utilização dos produtos pelos clientes — que representam a maior parte da pegada de carbono e, portanto, são as mais desafiadoras de controlar.
